Pela boca morre o peixe e meter-te na boca do lobo foram dois ditados, ou chamemos-lhes expressões, que- entre muitos que reduzem numa frase o que se diria em mil- formaram parte da minha vida de adolescente simplesmente porque gostava de os utilizar. Não só pelo significado mas também por casualidades que os foram revelando como sendo importantes.
Sem querer comparti com a minha avó um gosto pelos provérbios populares. Ela foi apontando ao longo da vida, num caderno que me recorda os da minha infância, essas expressões tão singelas que nós os portugueses conseguimos ir perdendo pouco a pouco nesta nossa última década de pseudo-modernismo, não tendo capacidade para aproveitar o tradicional e renegando-o por uma tentativa generalizada de aproximação ao que pensávamos ser uma atitude contemporânea. Já cada vez menos se utilizam essas frases tão carregadas de filosofia e que englobam tanta sabedoria em um par de palavras. Um dia comentei à minha querida mãe que gostaria e iria tentar recolher o maior número de ditados possível. Pedi-lhe que me dissesse todos aqueles que se lembrava para ver se haviam alguns que se me escapavam, por ser novo, por não me lembrar, que por uma ou outra razão fossem impossíveis de plasmar por escrito naqueles momentos. Eis que me diz: A tua avó há já algum tempo que faz o mesmo! Escreveu todos aqueles que se lembrava e pergunta às amigas se sabem alguns que já não se usam! De vez em quando lá vai metendo mais um! Porra, eu que adoro coincidências, eis uma que não estava à espera... Ainda para mais vindo de alguém tão próxima. Enfim, a base de dados que a minha avó tinha compilado naquele caderno era realmente extensa. Tanta coisa em desuso pelo passar do tempo. Tanta coisa saloia. Tanta sabedoria do campo. E eu que pensava que conhecia muitos...
Pela boca morre o peixe e meter-te na boca do lobo... Há uns dias falava com a Li sobre ditados espanhóis e a estranha relação histórica que alguns têm com os portugueses, sejam eles uma pura tradução ou que de qualquer outro modo acabem por significar o mesmo.
Pela boca morre o peixe e meter-te na boca do lobo... As coincidências não acabam nunca, basta que se as busque, e, num bar, numa noite que juntou a ambos os provérbios assim como a nós os dois, reatámos.
Pela boca morre o peixe e meter-te na boca do lobo... No Bar Peixe Gordo falámos de coisas que me levam ao Bar Boca do Lobo. Meter-te na Boca do Lobo... Aquilo que falámos no Peixe Gordo, a sinceridade que se atingiu, leva a pensar no porquê da falta de sinceridade projectada pela Boca do Lobo como ideia e princípio. Tudo é uma espiral quando se quer vê-lo como tal e eu não quero dar música nem a peixes nem a lobos. Não sou nem Santo António orando para peixes nem um DJ dando música num covil de lobos.
Ti.
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