Quando me passou pela cabeça a ideia de escrever outra vez tentei resgatar à memória textos do passado e esboços de um ou dois livros que nunca viram a palavra FIM impressa na última página.
Quase de repente dei por mim a ter consciência de que o impulso de voltar a escrever tinha mais a ver com um desejo de vomitar em forma de escrita tudo aquilo que me estava a acontecer numa das épocas mais conturbadas da minha vida. Apercebi-me então que tinha vontade de falar comigo. Até há poucos dias nunca tinha sentido uma necessidade tão brutalmente avassaladora de escrever em algo parecido com um diário. Não, eu nunca tive um diário... Sempre achei interessante a ideia de ter um confidente imaterial ao qual se pode dizer tudo sem suspeita de crítica ou fuga de informação, mas, se sou sincero comigo mesmo, sei que sobretudo o que mais me fascina nessa concepção é o poder reler e analisar tudo aquilo que foi escrito e dito a esse confidente... As aulas que se podem receber desse mesmo confidente... Porque esse professor fala a língua do nosso Eu mais sincero. Essa é uma das razões pelas quais sempre respeitei quem tem um diário. Poderia dizer invejei mas não me lembro de alguma vez ter sentido inveja. Respeito sim, até porque não me lembro de querer ler um diário de qualquer das pessoas que sabia terem um.
Assim nasce À luz da sombra, T fala com T, T guarda coisas para T mais tarde recordar... Dou gargalhadas internas ao pensar que há informação disponível e ao mesmo tempo invisível.
Troco a pena pelo teclado e a tinta pelo ecrã. Afirmação básica, já sei!
Uma certa pessoa disse-me há pouco tempo que sou só "branco e negro". Por acaso, essa mesma pessoa é daquelas poucas a quem reconheço uma enorme capacidade crítico-analítica no que toca a mim, a nós e ao mundo em geral. Por acaso essa pessoa- a quem tenho que agradecer por isto um dia- fez despoletar o desejo explosivo de voltar a escrever com luz; e assim este blog terá também reflexos da minha velha paixão foto-escrita, da minha outra vida, do meu passado, com uma câmera como companheira re-encontrada. Por acaso essa pessoa- a quem volto a dirigir um obrigado- com todas as suas capacidades, esqueceu-se de olhar com atenção e ver que eu não sou, nem nunca fui, feito apenas de brancos e negros mas sim de muitas escalas de cinzento.
Tenho uma mania desde miúdo que é nunca reler algo que acabo de escrever à procura de erros e buscando ver se poderia dizer de outro modo. Sempre me pareceu que reler e corrigir é uma mutilação a um corpo com vida própria e que sai à força do ventre. Resisto agora por saber que vai ficar plasmado no principio da página e porque uma primeira entrada deveria ser cuidada. Por outro lado desleixo-me lânguidamente por saber que sou velho demais para mudar tudo e que sempre haverá velhos hábitos que dão gozo manter... Se faço click sai uma foto; não vou andar a perder tempo no Photoshop a aperfeiçoar aquele momento... Se houvesse um Photoshop para a nossa vida...
Com o intuito de viver a dois,
Vivi menos que meia vida,
Não vivi sempre a minha
E vivi por quem não a merecia.
Onde tive certezas teve dúvidas,
Onde vi futuro viu final,
Andava tão cego que não via,
Que para ela já tudo era mau.
Qualquer alma errante que entre um dia sem querer terá que desculpar-me a sinceridade: BAZA! A tua ausência é a minha alegria ;)
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